Com um único pódio em 4 Copas, América do Sul mira fim de domínio europeu em 2022

Por Rafael Franco, Estadão Conteúdo

Embora o Brasil se mantenha como o maior campeão da história das Copas, com cinco títulos, a América do Sul tem visto o domínio europeu ser ampliado na principal competição do futebol do planeta. Das últimas quatro edições do Mundial, em apenas uma delas houve a presença de uma seleção sul-americana no pódio, com a Argentina conquistando uma amarga medalha de prata ao ser derrotada pela Alemanha na final de 2014, no Maracanã.

Essa supremacia europeia começou a ser imposta de forma significativa em 2006, quando a Itália superou a França na decisão, na Alemanha, onde a seleção da casa também superou Portugal na disputa pelo terceiro lugar. Nas duas Copas seguintes, a América do Sul teve duas boas chances reais de ao menos terminar com representantes entre os três primeiros, mas o Uruguai e os brasileiros fecharam as suas campanhas na quarta posição respectivamente em 2010, na África do Sul, e 2014, no Brasil.

Há oito anos, os uruguaios foram derrotados por 3 a 2 pelos alemães no confronto que valeu um posto no último lugar do pódio, enquanto a equipe comandada por Felipão foi atropelada pela Holanda por 3 a 0, no Mané Garrincha, em Brasília, em um adeus melancólico ao Mundial após a humilhante goleada por 7 a 1 sofrida para a Alemanha, no Mineirão, em Belo Horizonte, nas semifinais.

Em 2018, na Rússia, o Peru foi o único time sul-americano que não passou pela fase de grupos, mas a Argentina e a Colômbia caíram nas oitavas de final, enquanto Brasil e Uruguai foram eliminados nas quartas respectivamente por Bélgica e França. No fim, os uruguaios terminaram a Copa em quinto lugar e os comandados de Tite vieram logo atrás, em sexto.

Em 2006 e 2010, por sinal, o Brasil também foi batido nas quartas de final. Algoz da equipe comandada por Carlos Alberto Parreira há 12 anos, a França de Henry e Zidane só seria parada pela Itália na decisão, enquanto a Holanda também foi vice-campeã depois de despachar a seleção dirigida por Dunga na África do Sul.

E neste ano chama a atenção o fato de que a seleção brasileira foi eliminada mesmo sem enfrentar nenhum gigante do futebol mundial em sua campanha. Perdeu nas quartas de final para a Bélgica, que não ficava entre as quatro melhores de uma Copa desde 1986, quando foi superada pela França na decisão do terceiro lugar.

Também vale ressaltar que esta Copa não contou com a tetracampeã Itália e com a tradicional Holanda, ambas fracassando nas Eliminatórias Europeias, assim como a temida Alemanha saiu do caminho do Brasil ao cair de forma surpreendente no estágio de grupos do Mundial na Rússia.

Batida por 2 a 0 pelo time de Tite em amistoso às vésperas do Mundial, a Croácia acabou surpreendendo ao ser finalista pela primeira vez, enquanto a Inglaterra também fez história ao voltar às semifinais após 28 anos – em 1990, o país foi quarto colocado ao perder para a anfitriã Itália na luta pelo último lugar do pódio.

Campeã em 2018 e vice em 2006, a França agora é o retrato mais bem acabado do domínio imposto pelos europeus nas últimas quatro Copas, assumindo o protagonismo anteriormente conseguido pela Alemanha, vencedora em 2014 e terceira colocada em 2006 e 2010.

JEJUM DE 20 ANOS – Sem conseguir repetir o sucesso do passado, a América do Sul teve um campeão pela última vez em 2002, quando o Brasil faturou o penta com os dois gols marcados por Ronaldo na vitória por 2 a 0 sobre a Alemanha, no Japão. Ou seja, a seleção brasileira e a própria América do Sul irão desafiar, na Copa de 2022, no Catar, um jejum de 20 anos sem títulos mundiais de países do continente.

Se for levado em conta o período de Copas realizadas entre 1974 e 1994, a queda de rendimento dos sul-americanos em relação às duas décadas seguintes é evidente. Depois de um quarto lugar do Brasil no primeiro destes Mundiais, na Alemanha, em 1978 a anfitriã Argentina faturou o seu primeiro Mundial ao bater a Holanda na decisão, enquanto o Brasil, com uma campanha invicta, ficou em terceiro ao superar a Itália no confronto que valeu um lugar no degrau mais baixo do pódio.

Quatro anos mais tarde, na Copa da Espanha, nenhuma equipe da América do Sul foi às semifinais, mas a equipe repleta de craques escalada por Telê Santana encantou o mundo com um grande futebol e até hoje deixa saudade, apesar de ter sido eliminada pela campeã Itália naquela campanha de 1982.

Em 1986, no México, apenas uma seleção sul-americana ficou entre as quatro melhores, mas foi justamente este time, liderado pelo craque Maradona, que conquistou a taça e comemorou o bicampeonato mundial ao bater a Alemanha por 3 a 2 na decisão.

Na Copa de 1990, na Itália, novamente as duas seleções se enfrentaram no confronto que valeu o título, mas desta vez os alemães levaram a melhor com uma vitória por 1 a 0.

A partir dali, o Brasil conseguiu a façanha de avançar à final em três Mundiais consecutivos, faturando o título em 1994, nos Estados Unidos, sendo vice em 1998 ao cair diante da França e novamente campeão em 2002 com o triunfo sobre os alemães. Nestas três Copas, por sinal, os brasileiros foram os únicos representantes sul-americanos nas semifinais.

3 CAMPEÕES EM 6 COPAS – Ou seja, no período entre 1974 e 1994, a América do Sul contou por três vezes com um campeão mundial, teve um vice-campeão, se colocou no terceiro lugar do pódio em uma outra ocasião e ainda amealhou um quarto lugar ao longo destas seis Copas. Já nos seis Mundiais seguintes, o continente teve um país faturando o título somente uma vez, viu duas de suas seleções serem batidas em decisões em outras duas oportunidades e amargou mais duas derrotas em confrontos que valeram o terceiro lugar.

A diferença de poder econômico, que se acentuou bastante entre os times sul-americanos e europeus nas últimas décadas, serviria para ajudar a explicar o domínio das seleções do Velho Continente principalmente nos últimos 12 anos, mas no período de 2006 para cá a imensa maioria de jogadores convocados para defender as maiores potências da América do Sul já vinham atuando por equipes europeias.

Entretanto, uma constatação é certa: o fracasso na Rússia ligou de vez o sinal de alerta para o Mundial do Catar, onde a Europa chegará ostentando 12 títulos, contra nove taças obtidas por países da Conmebol. O abismo não parece ser tão grande dentro de campo quando os europeus enfrentam as mais fortes seleções sul-americanas, mas o jejum de 20 anos sem erguer uma taça colocará em xeque a força do futebol do continente. É disparada a maior fila de títulos da América do Sul, campeã também com o Uruguai em 1930 e 1950 e nas décadas seguintes com o próprio Brasil em 1958, 1962 e 1970, antes do tetra em 1994 e do penta em 2002.

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