China x Estados Unidos

O conflito entre a China e os Estados Unidos ganhou destaque na reunião do G-20, no último final de semana em Buenos Aires. Os dois países deram um pequeno passo na direção de um entendimento, fazendo uma trégua de três meses. O resto do mundo está olhando esse conflito com muito interesse. As consequências mundiais são muito grandes. Tudo aponta na direção de uma luta aberta pela liderança mundial.

As consequências para o Brasil são enormes. O Brasil compete com os Estados Unidos na exportação de alimentos para a China. O principal item é a soja. Com a guerra de tarifas, o Brasil vai exportar mais de 80 milhões de toneladas de soja em 2018. A China ficou com mais de 80% desse volume.

Hoje os chineses impõem uma tarifa de 25% à soja norte-americana. Mais do que isso, eles estão dando uma nítida preferência à soja da América Latina, e importando muito pouco da soja dos Estados Unidos.

O confronto com os Estados Unidos pegou os chineses desprevenidos. A estratégia deles era de crescimento econômico, tecnológico e armamentista, sem um confronto direto com os Estados Unidos, pelo menos por enquanto.

Trump percebeu a estratégia chinesa. O quanto mais os Estados Unidos esperassem, mais a China se fortaleceria. A sua estratégia é abafar o crescimento chinês, principalmente o tecnológico. Pois com o domínio tecnológico, o domínio militar é uma consequência.

Só que esse domínio não se faz só tecnologia que possibilita fazer armas no sentido restrito. Tudo pode se transformar em arma. Por exemplo, comida. Hoje a China é dependente das importações de comida para manter o seu povo. A soja é o seu principal item de importação, mais do que o milho. Sem a soja ela não consegue manter a criação de porcos, que é a principal carne produzida na China. Além disso, a soja é um item importante na alimentação humana na China.

O presidente Trump impôs tarifas aos produtos chineses, uma forma de conter a indústria chinesa, principalmente de alta tecnologia. A resposta dos chineses foi rápida, aumentou a tarifa de alguns produtos norte-americanos.

Só que a estratégia dos chineses foi atingir aos eleitores do Trump, principalmente os agricultores. A estratégia não funcionou nas eleições de meio de mandato, onde todos os deputados federais e dois terços dos senadores são eleitos. Trump perdeu a liderança na Câmara de Deputados, mas conseguiu manter a no Senado.

Para complicar as coisas para os chineses, o candidato Bolsonaro se elegeu no Brasil, mudando o cenário político no Brasil para os chineses. Com o governo do PT, os chineses tinham um alinhamento ideológico. Se sentiam muito à vontade, inclusive para ditar as regras dos investimentos chineses no Brasil. Agora o cenário mudou. O futuro presidente Jair Bolsonaro não esconde o seu alinhamento com a política do Trump.

A posição chinesa se fragilizou. Ela ficou mais dependente do Brasil. Bolsonaro está com a faca e o queijo na mão. Vai poder negociar melhor os acordos comerciais com a China.

A China comunista tem uma tradição de ser muito pragmática. As suas decisões de política internacional são muito mais racionais do que as dos Estados Unidos, que ainda sonham que são uma potência que lidera o mundo.

É só uma questão de tempo e a China vai roubar essa liderança. Um confronto aberto com os Estados Unidos, neste momento, é um desastre para a China.  Os chineses sabem disso e vão ser muito cuidadosos com as suas ações.

O mesmo não podemos esperar dos norte-americanos. Eles são movidos por ações emocionais, e muitas vezes irracionais. A Guerra do Iraque foi um desastre, custou aos norte-americanos mais de três trilhões de dólares, e acelerou a decadência dos Estados Unidos.

Agora, com a política de aproximação do Bolsonaro, o Brasil passa a ser um peão muito importante no confronto China x Estados Unidos. Ambos desejam contar com a aproximação com o Brasil. Bolsonaro poderá aproveitar a situação e negociar a sua posição no conflito.

Os investimentos de longo prazo na infraestrutura brasileira vão ser um primeiro teste para a nova geopolítica do Brasil. Que está parecida com a posição de Getúlio Vargas durante a 2ª Guerra Mundial. Ele negociou com os dois lados, Alemanha e Estados Unidos, até se decidir pelos Estados Unidos. Levou de quebra a implantação da siderúrgica de Volta Redonda, e a consolidação da industrialização do Brasil. Vamos ver se o novo presidente aprende um pouco com a sabedoria do ex-presidente Getúlio Vargas.

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